Thais Lazzeri e a integridade da informação, da COP30 ao debate público

Thais Lazzeri
Foto: Arquivo pessoal

Ao longo da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém (PA), em novembro de 2025, muitos discursos foram inspirados por apelos morais — isto é, por valores e percepções sobre justiça, responsabilidade e prioridades relacionadas à agenda climática — e por mecanismos tradicionais e técnicos, associados ao modelo convencional de negociação e comunicação climática. 

Esse modelo se baseia em metas de longo prazo, instrumentos financeiros pouco visíveis para a população e uma linguagem institucional abstrata, frequentemente distante da realidade de quem acompanha a conferência de fora e convive com a violência, o desemprego e outras questões percebidas como urgências imediatas. Isso aumenta a chance de a pauta climática ser percebida como algo elitista, de difícil compreensão e distante da realidade das pessoas. A ineficiência de algumas narrativas tem relação com a forma como parte da sociedade brasileira enxerga a agenda climática.

O esgotamento da capacidade de se engajar com problemas que parecem insolúveis ou politizados afasta as pessoas do tema. Sem se sentirem parte do debate, muitas passam a aceitar que o futuro será decidido por outros, geralmente por quem domina a linguagem técnica e ocupa os espaços de decisão, ao mesmo tempo em que cresce a exposição a fake news que apresentam informações difíceis de distinguir como reais ou não.

Thais Lazzeri, diretora e fundadora da FALA, um estúdio de impacto brasileiro que promove mudanças sociais por meio da comunicação, do storytelling e da estratégia, afirma que a desinformação climática não se sustenta apenas por conteúdos isolados. “Ela se mantém por uma lógica estruturada de circulação de narrativas, com recursos. Essa lógica organiza emoções, cria identidades, influencia decisões e produz efeitos materiais muito concretos. Enfrentá-la, portanto, não é apenas uma questão de correção factual, mas de reorganização do ecossistema narrativo em que decisões públicas são tomadas.”

O desafio não é apenas comunicar melhor, mas construir um ecossistema capaz de testar, mensurar, aprender e compartilhar estratégias de comunicação para impacto. “Sem esse ciclo o campo democrático permanece na abstração: reconhece que comunicação é importante, mas não consegue demonstrar como ela altera decisões, políticas ou comportamentos”, explica. Ela aponta como ponto central que o storytelling, quando integrado a uma estratégia sistêmica, evidencia o custo da desinformação ao tornar visíveis suas consequências na vida das pessoas, seja na implementação de políticas públicas, na proteção de direitos ou na confiança institucional das organizações que atuam em campo.

“O campo democrático subestima essa dimensão, trabalhando a comunicação como produto e entrega, não como infraestrutura”, reflete. Ela acrescenta que, na FALA, estão propondo e testando uma abordagem em que a comunicação é estruturante, transversal e articulada com advocacy.

“Se a desinformação opera como sistema, a resposta também precisa operar. E o storytelling, nesse contexto, deixa de ser ferramenta estética e passa a ser instrumento de incidência estrutural. O que vimos na COP30 foi essa lógica operando em escala. Quando narrativa, coalizão e momento político se alinham, a comunicação deixa de contar a história e passa a mudar o rumo dela.”

Uma demonstração prática de que a comunicação, quando estruturada como estratégia e não como acessório, pode produzir incidência real aparece no “Mentira Tem Preço”, um dossiê desenvolvido pela FALA. A primeira edição foi distribuída na pré-COP para enviados especiais, como parte de um diálogo que já estava em curso. Já na COP30, a FALA lançou uma versão ampliada em três idiomas, português, inglês e espanhol.

Após participação em mesas-chave na COP30 e reportagens em veículos nacionais e internacionais, a campanha alcançou meio milhão de pessoas em oito semanas. “Mais importante do que os números foi o deslocamento que o dossiê provocou no debate. A discussão deixou de ser episódica e passou a integrar análises estruturais sobre temas como clima, democracia, bioeconomia e direitos digitais. Se política é disputa de narrativa, documento estratégico é instrumento de poder.”

Thais Lazzeri em evento da CAAD durante a COP30, em Belém
Foto: FALA

Acompanhando a importância de discutir a desinformação climática, a integridade da informação entrou na COP como condição de governabilidade climática. Pela primeira vez, o termo foi incorporado ao texto oficial final da Conferência. “Isso desloca o debate para um patamar institucional. Quando algo entra no documento final da COP, deixa de ser advocacy e passa a integrar o vocabulário da governança global. A COP30 foi histórica. Mas o mais importante é que ela mostrou que a integridade da informação é uma infraestrutura indispensável para a democracia”, celebra Thais.

Mais do que gerar novos apoios, a presença da integridade da informação na COP abriu conversas estratégicas. “Apoio não é evento. É construção. Quem trabalha com mudança sistêmica sabe que financiamento sólido nasce de visão compartilhada e compromisso de longo prazo, e leva tempo para acontecer”, explica Thais, acrescentando que o que se viu após a COP30 foi uma mudança de patamar. “Primeiro, houve uma transformação estrutural no ambiente político: o termo deixou de circular apenas em fóruns especializados e passou a compor o vocabulário da governança climática. Isso altera o terreno onde todos nós operamos. Depois, houve uma mudança de narrativa. Um tema que, há poucos anos, era visto como técnico e periférico passou a ser tratado como eixo da democracia climática.”

À medida que novos campos entram na conversa, a integridade da informação aparece com mais clareza na agenda pública, mas Thais alerta que, após o reconhecimento político do tema, o próximo passo é transformar reconhecimento em estrutura.

Também é necessário avançar na integração com outros setores, ampliando a compreensão de que a integridade da informação é uma pauta transversal.

“O Brasil ainda tem um ciclo de entregas até a COP31, e isso vai definir se o tema da integridade da informação será consolidado como eixo permanente da agenda multilateral ou lembrado apenas como marca de uma edição histórica. Precisamos aprofundar o olhar sobre como a desinformação impacta diretamente a vida das pessoas. Democracia, políticas públicas, acesso a direitos. Essa é a próxima fase.”


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