Ronan Lima e a construção de pontes entre justiça racial e justiça climática

Ronan Lima
Foto: arquivo pessoal

Reconhecer a diversidade de formas de “ser crente” é um ponto de partida fundamental para a construção de narrativas capazes de se conectar aos diferentes contextos e experiências das comunidades de fé. Nesse sentido, destaca-se a relevância de estabelecer interlocução com a população negra, que corresponde a 61% dos evangélicos brasileiros, segundo o Censo de 2022.

Para Ronan Lima — coordenador do Programa Martin Luther King Jr. do Movimento Negro Evangélico (MNE), pastor e mestre em Teologia — as camadas que atravessam essas agendas constroem relações de pertencimento e criam caminhos para um outro Brasil, que pode olhar para a organização do povo negro nas igrejas como uma das soluções para o fortalecimento de uma cultura democrática e de promoção dos direitos humanos.

Ronan defende que a importância das igrejas vai além de qualquer rótulo que se possa aplicar de fora das comunidades de fé. “Elas funcionam como centros de recuperação de dignidade. São espaços em que muitas pessoas negras têm a oportunidade de se desenvolver plenamente, sem serem vistas apenas como mão de obra barata”. Ele acrescenta que negros evangélicos representam uma parcela expressiva da população.

“A maioria são mulheres periféricas, que atuam no cuidado coletivo da congregação e da comunidade em que vivem. Falar com evangélicos é, portanto, falar com pessoas negras que, mesmo sem uma plena consciência racial, percebem que são vistas de forma diferente. Quando essas pessoas denunciam que estão sofrendo racismo, inclusive em instituições consideradas conservadoras, as conversas que surgem contribuem para a construção de justiça e reparação no âmbito da fé, tornando-se uma porta de entrada para transformações sociais mais amplas e positivas no país.”

Ao enxergar a teologia negra como um instrumento relevante para essa transformação social e para o fortalecimento de lideranças negras evangélicas, o MNE tem se dedicado, nos últimos anos, a ampliar sua presença e circulação como perspectiva no Brasil. “Assumimos um papel catalisador na popularização e na produção da teologia negra no território brasileiro, encorajando pessoas a se lançarem no estudo formal e na teologia acadêmica, ao mesmo tempo em que a teologia produzida nas comunidades, nas liturgias e no dia a dia segue acontecendo, e novas formas de cultuar e olhar o mundo têm sido replicadas por lideranças negras evangélicas”, explica. 

Ele aponta que essas ações contribuem para que mais pessoas dentro das igrejas consigam formar uma consciência de justiça racial, que está diretamente conectada a um país mais diverso e igualitário.

“É uma forma de ampliar a compreensão do racismo como uma mazela enraizada na formação social brasileira, mostrando sua conexão com a necessidade de lutar por justiça, reparação e bem viver, além de relacionar esse enfrentamento ao respeito às diversas religiões.”

Somados aos esforços voltados à promoção de ações antirracistas, o MNE também atua na mobilização de comunidades evangélicas para pensar a justiça climática e compreender o caráter político das catástrofes e emergências dessa agenda. Segundo Ronan, esse trabalho acontece por meio de projetos replicáveis nas igrejas. “Em 2024, começamos o projeto ‘Acácias’, uma iniciativa que promoveu o debate sobre clima e racismo ambiental a partir de atividades que envolveram 15 jovens ao longo de oito meses, em um processo organizado em três etapas: formação, multiplicação e incidência pública.”

O projeto também incluiu uma formação com lideranças religiosas no Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) e no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), promovendo um encontro entre pastores e cientistas voltado ao enfrentamento do negacionismo climático e à sensibilização de lideranças. A iniciativa reuniu, no mesmo espaço, pessoas com diferentes visões, incluindo conservadores e progressistas.

Jovens, lideranças religiosas e integrantes do Movimento Negro Evangélico participam de imersão promovida pelo MNE no CEMADEN
Foto: Arquivo institucional / reprodução

Ele relata que, na etapa de multiplicação, os participantes eram responsáveis por levar os conhecimentos adquiridos para seus ciclos sociais. “A ideia é fazer isso de maneira criativa. Os testemunhos colhidos, que relataram ao MNE como foi levar essas discussões para as próprias comunidades, chamaram nossa atenção e cultivaram nossa esperança”, celebra.

Ronan conta que, desde o projeto “Acácias”, o MNE tem se comprometido de forma mais consistente com a agenda climática. “Essa forma de agir ganhou força quando decidimos trabalhar para ampliar nossa presença em redes de organizações climáticas e comunicar externamente nosso discurso, conectando questões climáticas e comunidades de fé.” 

Ele destaca que já há exemplos concretos desse envolvimento crescente com o tema. “Realizamos a campanha ‘Nossa fé move montanhas, não as destrói’ e, no período pré-COP30, promovemos discussões sobre o clima que envolveram igrejas e lideranças a partir de formações, momentos de oração e ações de conscientização sobre as questões ambientais nos próprios territórios das pessoas participantes.”

Agora, o MNE planeja a versão 2.0 do projeto Acácias. “A nossa ideia é promover o projeto como um fellowship, dando continuidade à campanha e com o objetivo de fomentar ainda mais o debate sobre o clima no meio evangélico”, adianta. Ele observa que é fundamental que as pessoas se enxerguem como parte do problema, mas também da solução.

Ronan acrescenta que há espaço, tanto dentro das igrejas quanto junto à sociedade e ao poder público, para mostrar que as comunidades de fé podem fazer parte da solução, já que muitas delas já realizam, no cotidiano, práticas alinhadas a esses compromissos. O que falta é se enxergarem e reconhecerem que já ocupam esse lugar.



“Não podemos fechar os olhos para o que está acontecendo no Brasil e no mundo. Até porque, se somos nós aqueles que abrimos nossas igrejas e casas para abrigar os atingidos pelas enchentes, para oferecer alimento, consolo e novos documentos a quem perdeu tudo, também precisamos ser os que contribuem para que essas situações extremas não aconteçam ou, ao menos, sejam minimizadas.”

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