Jaqueline Fernandes e a cultura como infraestrutura de transformação
Jaqueline Fernandes
Foto: Tatiana Reis
Cerca de 300 mil pessoas ocuparam as ruas de Brasília durante a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver. Com uma construção colaborativa e estratégica voltada a mobilizar mais pessoas, a edição de 2025, dez anos depois da primeira, evidenciou a cultura como método comunicacional e político. No período que antecedeu a Marcha e no próprio dia 25 de novembro, ativações, incluindo performances e festas, posicionaram a cultura como um ativo central da mobilização.
Embora aplicado pela primeira vez em grande escala em uma edição da Marcha, o entendimento da cultura como eixo da mobilização vem do movimento negro, que tem como legado não separar luta política de manifestações culturais e coletivas. Na Marcha, Jaqueline Fernandes teve um papel central em traduzir esse entendimento em uma experiência de alegria, pertencimento e participação coletiva.
Foto: Dino Santos / Reprodução
Gestora cultural, artista, curadora musical e jornalista, Jaqueline é fundadora e presidente do Instituto Afrolatinas, idealizadora e diretora geral do Festival Latinidades e reitora da Universidade Afrolatinas. Ao longo de sua trajetória, ela vem desenvolvendo ações de formação, produção cultural e incidência, o que a deixou esperançosa quando a Marcha definiu a cultura como método comunicacional.
“Essa escolha tem um valor simbólico e estratégico. A cultura não deve ser entendida como ‘intervalo’ ou entretenimento, mas sim como infraestrutura de transformação. Receber um apoio exclusivamente focado em cultura reconhece, na prática, que a luta por reparação também se faz por meio de narrativas, linguagens, memória e criação, algo que historicamente foi e segue sendo invisibilizado ou tratado como ‘ornamento’. Esse tipo de apoio não apenas viabiliza um evento, ele protege e potencializa um ecossistema”, comemora.
Para Jaqueline, investir em cultura não deve ser um recurso acessório, decorrente de apoios destinados a outras áreas do projeto, mas uma estratégia protagonista. “Ao colocar a cultura no centro, a Marcha ganhou repertório compartilhável e múltiplas portas de entrada para públicos diferentes, porque a linguagem das artes e das manifestações artísticas tem a capacidade de decodificar temas complexos em imagens, som, estética, linguagem corporal e performance.”
A ampliação de repertório ajudou a afirmar que cantar, dançar e marchar juntas também são atos políticos e levou a organização da Marcha a apostar em ferramentas de comunicação como um jingle. Composto e interpretado por Larissa Luz, com realização do Latinidades, o jingle ajudou a dar unidade sonora e identidade à convocação.
Intitulado “Mete Marcha Negona Rumo ao Infinito” e com versos como “Toda mulher negra move o mundo”, o jingle repercutiu e ganhou até coreografia em vídeo, adequando-se a uma das formas de engajamento mais estratégicas em 2025. “A coreografia criada por Aline Maia viralizou para públicos que não teriam acesso orgânico ao conteúdo da Marcha”, conta Jaqueline.
Ao refletir sobre a inspiração que a Marcha estimula ao reforçar a cultura como um território potente de disputa de narrativas, Jaqueline também olha para a própria trajetória. “Aprendi que a cultura parte de uma infraestrutura simbólica que organiza o senso comum, as disputas e as formas de viver. As manifestações artísticas elevam isso à máxima potência. Quando o poder das artes e da cultura é subestimado, abrimos espaço para que o poder hegemônico e simbólico continue naturalizando desigualdades. Por outro lado, quando a cultura é assumida como campo de disputa, ela vira ferramenta para subverter estereótipos, desmontar o racismo cultural e recolocar no centro memórias e experiências que foram empurradas pras margens”, afirma.
Ela ressalta que justiça racial e reparação também se fazem com reconhecimento, reconstrução de sentido e correção histórica. “Disputar cultura é disputar a narrativa oficial, questionar a história que foi contada como se fosse única e devolver legitimidade a modos de vida, saberes e territórios que resistiram ao apagamento. E isso tem efeito direto na forma como a sociedade se comporta, porque a cultura tem um papel pedagógico enorme. Ela oferece estruturas de significado que as pessoas repetem, cantam e aprendem a admirar ou a rejeitar.”
Para Jaqueline, essa vivência a ajudou a trabalhar de forma colaborativa com a organização da Marcha e a potencializar a arte e as manifestações culturais como caminhos para alcançar onde as políticas públicas muitas vezes não chegam. “Conseguimos traduzir complexidades em linguagem sensível, gerando identificação e ampliando o debate para além dos espaços já politizados. A arte abre portas para que pessoas que ainda não se veem dentro do tema possam se reconhecer e, a partir daí, se mover”, explica.
É nesse ponto que Jaqueline enxerga a potência das narrativas produzidas por mulheres negras e alguns dos legados que a Marcha pode deixar. “Quando mulheres negras narram a própria história, deixam de ser objeto de representação e passam a ser sujeito político, disputando sentidos, produzindo referências e alargando os limites do possível. Eu carrego a ideia de que cultura é um campo de batalha onde visões de mundo são validadas, contestadas ou transformadas. É por isso que investir em cultura é investir em justiça racial e reparação, porque a mudança estrutural também acontece no plano simbólico, no imaginário coletivo e nos valores que sustentam as decisões públicas e privadas”, conclui.

