Alane Reis: das palavras à mobilização coletiva
Alane Reis
Foto: Lissandra Pedreira
Oferecendo uma espécie de espelho coletivo, a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver aconteceu no dia 25 de novembro de 2025 e foi resultado de uma década de mobilização. A iniciativa fez história ao reunir três vezes mais pessoas do que na primeira edição, em 2015, levando para as ruas de Brasília mulheres negras de todas as regiões do Brasil, do interior e das áreas rurais às capitais e periferias urbanas, além de participantes de outros países das Américas, da África e da Europa.
Foram cerca de 300 mil sonhos ocupando as ruas da capital federal e, logo no slogan, “onde nossos sonhos se encontram”, a Marcha já trazia esse elemento comum e mobilizador, contribuindo para que mulheres com motivações diversas se reconhecessem em visões e aspirações coletivas.
A busca por ampliar o alcance da Marcha foi uma preocupação desde antes de sua realização e incluiu um esforço de promover alinhamento comunicacional em torno das mensagens-chave, além de ampliar o diálogo com públicos que ainda não estavam mobilizados.
Alane Reis, que atuou como co-coordenadora de comunicação e articuladora política da Marcha, conta que, nesse processo, foi fundamental estruturar um ecossistema de comunicação capaz de garantir que a voz das mulheres negras, coletivamente organizadas, estivesse presente nos mais diversos espaços, das ruas às redes, das mídias mainstream às ativistas.
“Foi um espaço coletivo que reuniu diferentes organizações da sociedade civil, da filantropia, da mídia, junto a comunicadoras independentes, artistas e criadoras de conteúdo. Funcionou como um fórum privilegiado de construção de estratégias e ações da comunicação da Marcha ao longo de seis meses intensos”, revela.
Ela acrescenta que, nesse espaço, as participantes doaram suas expertises, recursos humanos e relações institucionais. “Ainda no início desta articulação, percebemos que a pluralidade de sujeitas e instituições envolvidas era nossa principal força, e isso foi trabalhado como tática central de nossa atuação.”
Foto: Gabriel Albernás / Reprodução
Quando reflete sobre o que muda no debate público quando tantas mulheres negras se unem em uma mobilização como essa, Alane opina que, na última década, a luta antirracista e os direitos das mulheres cresceram no debate público, mesmo diante da intensificação paralela dos discursos conservadores.
“A Marcha revela para a sociedade brasileira que nós, mulheres negras, somos as principais protagonistas dessas lutas e, para além disso, reitera o nosso poder de articulação política e mobilização social. Um ato desta proporção, que levou 300 mil pessoas à capital federal, mobilizou comitês organizativos em mais de 420 cidades do Brasil e teve a presença de núcleos de 40 países do mundo, isso obriga a sociedade brasileira a ouvir o que temos a dizer”, celebra.
Jornalista e mestre em Comunicação, Alane é coordenadora executiva e editora de conteúdo da Revista Afirmativa, além de coordenadora do programa de comunicação do Odara, Instituto da Mulher Negra. Ela também é a ativista co-responsável pela comunicação da Rede de Mulheres Negras do Nordeste e da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB).
Natural de Salvador, na Bahia, ela se formou jornalista em Cachoeira, cidade do Recôncavo baiano de onde vem sua família paterna e onde ingressou no ativismo político de forma mais organizada. “Imprimiram em mim um amor pela negritude e por tudo o que vem com ela, como a coletividade, os processos de resistência e a criatividade em forjar arranjos de alegria em meio às dificuldades”, relembra.
Nos movimentos de mulheres negras, encontrou algo que já percebia no convívio com sua família e suas comunidades. “As mulheres negras eram lideranças fundamentais e, mesmo muitas vezes silenciadas pelas lógicas do racismo e do machismo, encontravam na palavra força e refúgio. A palavra trocada nos cochichos das preces; nas conversas privadas entre adultas, ouvidas pelas meninas; nas músicas ouvidas e cantadas bem alto; nos textos das novelas assistidas; nas gerações que acessaram a literatura e encontraram a poesia escrita. Éramos todas apaixonadas pelas palavras”, reflete.
Essa admiração pelas palavras estimulou Alane a estudar e conhecer episódios da história brasileira em que a população negra se organizou para incidir no projeto político de nação que desejava. Ela explica que, no contexto contemporâneo, as marchas têm funcionado como metodologias de luta negra que pautam a nação, a sociedade e a política, e que ver isso na Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver a anima. “Me faz acreditar que estamos dando continuidade a essa longa história de luta pela nação que queremos, em um contexto político propício para disputas de narrativas, de espaços e de valorização e resgate da memória”, confidencia.
Ela completa que isso não quer dizer que as condições sociais e econômicas estejam favoráveis. “Muito pelo contrário. O racismo, em todas as suas nuances, tem alcançado níveis de crueldade e aniquilamento muito mais intensos do que anos atrás. O que há de diferente no contexto atual é como os discursos dos movimentos de mulheres negras têm alcançado as pessoas de maneira mais direta”, conclui.

