Marcos Wesley Pedroso e as soluções para a emergência climática que vêm dos territórios

Marcos Wesley Pedroso
Foto: Arquivo pessoal

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) foi realizada na cidade de Belém, no Pará, entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025. 

Palco de 56 decisões adotadas entre os países participantes, passando por temas como adaptação e financiamento, a conferência foi, ao mesmo tempo, fonte de resultados positivos e de negociações que deixaram a desejar, especialmente pela falta de consenso sobre a inclusão dos combustíveis fósseis no texto final, um dos pontos mais aguardados.

Entre frustrações e avanços que devem orientar a ação climática global nos próximos anos, o Relatório Executivo da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, divulgado em março de 2026, reafirma o compromisso dos países membros do Acordo de Paris com a meta de manter o aquecimento do planeta abaixo de 1,5°C, o que torna ainda mais necessária uma jornada focada na implementação e reforço da ação climática.

Para o Brasil, essa jornada de comprometimento esbarra na experiência que os brasileiros têm da crise climática, marcada, em grande parte, por desigualdades históricas. Construir narrativas capazes de disputar espaço com outras urgências sociais mais facilmente identificáveis, como segurança e saúde, exigiu do campo, especialmente dos profissionais dedicados a pensar mensagens para alcançar a opinião pública, uma preparação intensa.

Essa preparação ganhou mais concretude em 2024, evidenciando a oportunidade de o país reafirmar seu papel nas negociações sobre mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que buscava conectar a agenda climática global com o território e fortalecer novas lideranças.

Marcos Wesley Pedroso, Assessor Político e Institucional no Comitê COP30, uma coalizão da sociedade civil, conta que o período que antecedeu a conferência já foi, por si só, um processo estratégico de formação política e fortalecimento de lideranças.

“Ao antecipar o debate climático para além do evento em si, foi possível tensionar narrativas, ampliar repertórios e criar pontes entre agendas globais e realidades locais, especialmente a partir da escuta e do envolvimento direto de atores dos territórios amazônicos”, avalia. Ele explica que os preparativos abriram caminhos para que novas lideranças passassem a ocupar espaços. “Esse movimento contribuiu para deslocar a agenda do clima de um campo excessivamente técnico para um campo político e territorial, no qual a crise climática é compreendida a partir de seus impactos concretos sobre a vida, os modos de existir e os direitos dos povos”, afirma.

Fundador do Tapajós de Fato, veículo de comunicação alternativo e independente, e ativista da agenda climática e socioambiental, Marcos observa que a COP30 provocou esse deslocamento e aproximou o debate climático das pessoas.“Foi perceptível um aumento das conversas sobre emergência climática fora dos espaços especializados. Ainda que de forma desigual, o tema passou a circular com mais frequência em programas jornalísticos, colunas de opinião e rodas de conversa. Esse movimento indica um avanço importante: a crise climática começa a ser reconhecida não apenas como um debate científico e ambiental, mas como uma questão social, econômica e política que atravessa o dia a dia das pessoas”, analisa.

Para Marcos, a comunicação estratégica aproxima a agenda climática das pessoas e rompe com a percepção de que a COP se resume a negociações técnicas e decisões restritas a poucos atores. Ela também fortalece a incidência política ao articular vozes dos territórios, produzir insumos qualificados e sustentar a pressão para além dos dias da conferência. “Estratégias que combinam jornalismo, mobilização digital, produção de dados, narrativas territoriais e articulação com a mídia ampliam a capacidade de cobrança e acompanhamento dos compromissos assumidos. Ao transformar a COP em um processo contínuo, e não apenas em um evento, a comunicação contribui para criar condições políticas e sociais que impulsionam ações climáticas mais concretas, monitoráveis e alinhadas às urgências globais e locais.”

Segundo Marcos, a COP30 abriu caminhos para que esse processo tenha continuidade, especialmente com a ampliação da presença de vozes historicamente marginalizadas. “Isso criou condições mais favoráveis para que soluções baseadas em conhecimentos locais fossem reconhecidas como parte legítima do debate climático. A presença mais organizada de povos indígenas, comunidades tradicionais, mulheres, juventudes e lideranças territoriais tensionou a ideia de que as respostas à crise climática devem vir exclusivamente de modelos técnicos ou tecnológicos produzidos fora dos territórios”, afirma. 

A mobilização de diferentes grupos e povos ajudou a consolidar a ideia de uma COP das pessoas, mostrando que muitas soluções para a agenda climática estão nos territórios e deixando claro que a participação social é determinante para o avanço dessa agenda. “Ter um espaço de articulação entre sociedade civil, movimentos sociais, povos originários, pesquisadores e tomadores de decisão permite construir alianças que ultrapassam o evento em si”, afirma Marcos, acrescentando que isso se reflete na consolidação de redes, metodologias de articulação e processos de advocacy que permanecem ativos para além da conferência.

Apesar de a mobilização em Belém ter gerado frutos, Marcos pontua que a COP ainda opera a partir de uma lógica “excessivamente institucional e diplomática”, pouco acessível e distante da maioria das pessoas. “Muitos acordos carecem de mecanismos reais de implementação, financiamento e responsabilização, o que gera frustração e descrédito. Soma-se a isso a forte presença de interesses econômicos que, em diversos momentos, esvaziam a radicalidade necessária para enfrentar as causas estruturais da crise climática. Quando não consegue dialogar de forma honesta com os territórios e transformar compromissos em mudanças concretas, a COP corre o risco de se tornar mais um grande palco de discursos, com pouco impacto na vida real”, conclui.

Marcos Wesley em painel sobre os riscos e desafios da atuação na agenda climática por meio da comunicação popular
Foto: arquivo pessoal / reprodução

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