Quando uma mulher quilombola tomba, o quilombo se levanta com ela
Selma dos Santos Dealdina Mbaye
Foto: Pedro Garcês / Conaq
A Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, realizada em novembro de 2025, foi um marco. Do Museu Nacional à Esplanada dos Ministérios, lideranças do movimento negro, quilombolas, parlamentares e representantes de organizações da sociedade civil se reuniram e tomaram a narrativa para si, movendo o imaginário e o sonho comum. Essas mulheres ocuparam a imensidão horizontal de Brasília com faixas, trios elétricos e performances.
Foi uma demonstração prática da capacidade de mobilização em larga escala, tendo a diversidade como um dos principais efeitos de pensar a comunicação estratégica na construção da Marcha e como um acerto para tornar visível que não há uma única identidade ou agenda capaz de responder pela pluralidade que existe entre as mulheres negras. Uma construção narrativa que gerou sentimento de pertencimento, legitimada em ações e em documentos como o manifesto oficial, que afirma que “toda mulher negra tem seu lugar na Marcha”.
Transformando esse princípio em prática, os dias em Brasília evidenciaram o resultado de um comitê até então inédito. Dedicado exclusivamente à agenda de clima, a partir da perspectiva de mulheres negras e quilombolas, esse novo espaço da segunda edição do evento foi mais um exemplo da ampliação da capacidade de mobilização e do protagonismo compartilhado entre diferentes mulheres negras.
Parte do comitê, Selma dos Santos Dealdina Mbaye, quilombola do Território Sapê do Norte (Angelim III e Morro da Arara), é ativista, assistente social e membro de diferentes conselhos e coalizões. Ela também é articuladora política da CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), onde integra o coletivo de mulheres, e vice-presidente do Fundo Casa Socioambiental. Para Selma, a criação desse comitê é consequência do fato de o clima ser um tema transversal.
“Essa agenda passa pela educação, pelo debate de gênero, pela saúde e pelas pautas com que a CONAQ se organiza, desde a implantação de projetos de desenvolvimento sustentável até a luta pelos territórios quilombolas”, aponta, acrescentando que o comitê mobilizou e reuniu mais de três mil mulheres quilombolas em Brasília. “Essas mulheres estavam em marcha cobrando a titulação dos territórios quilombolas e a implementação das políticas públicas, reforçando o quanto isso reflete na continuidade da preservação e do cuidado com a água, com o solo e com os animais”, afirma.
Para Selma, o comitê contribuiu para que as mulheres quilombolas se organizassem ainda mais em torno das pautas que já defendem. “Chegamos motivadas e saímos sentindo que cumprimos nosso dever ao entregar documentos e exigir a titulação dos nossos territórios como caminho para um Brasil mais justo, com atenção à agenda de clima, sem racismo, sem violência e com a garantia de que continuemos vivas.”
Durante as atividades da Marcha, as discussões reforçaram que as mulheres quilombolas sempre tiveram uma agenda que dialoga com quem está na base, todos os dias, enfrentando os impactos da emergência climática, o que passa pela falta de água, de terra e de subsídios. “Territórios titulados contribuem para a preservação do meio ambiente como um todo”, defende Selma, afirmando que as mulheres quilombolas têm cuidado da terra e alertado a sociedade. “Estamos chamando a atenção para o fato de que explorar os recursos naturais de forma exaustiva, como tem sido feito, tem um custo. Esse custo aparece, por exemplo, no aumento das enchentes e, ao mesmo tempo, nas secas. Se antes existia uma garantia dos meses em que podíamos plantar contando com a chuva, agora já não temos mais essa segurança.”
Foto: Dino Santos / Reprodução
Selma celebra a grandeza que foi o ato de 2025 e a diferença de ter comitês específicos para discutir diferentes temas. “A edição da Marcha em 2025 foi ainda mais espetacular do que a de 2015. Foi um marco que uniu mulheres da cidade, do campo e da floresta, de quilombolas a artistas. Uma unidade de mulheres pretas que, mesmo com suas diferenças e em seus processos de cura, se sentiram ouvidas. Mulheres que nunca deixaram de marchar e que puderam dar um grito preso na garganta.”
A Marcha e o comitê de clima também permitiram conectar pontas, chamando a atenção para o fato de que há quilombos presentes em todos os biomas do país e em 24 estados, o que não garante, por si só, a segurança dos povos que vivem nesses territórios nem a preservação da natureza neles existente. Selma afirma que a Marcha ampliou esse debate entre a ampla gama de mulheres negras presentes e mostrou que, se aliadas e aliados da agenda do clima estiverem abertas(os) a apoiar a titulação dos territórios, também contribuirão para enfrentar a emergência climática.
Selma chama a atenção para o fato de que, mesmo em um país como o Brasil, com mais de oito mil quilombos, nem sempre há espaço de protagonismo para mulheres negras nesses debates. Na Marcha, no entanto, essa agenda foi amplamente ouvida. “A Marcha é o maior ato de mulheres negras considerando toda a América e tem uma grande repercussão internacional. As barreiras que o ato rompe também contribuem com agendas como a do clima e com as diferentes pautas das mulheres quilombolas. Para mim, um dos recados que a edição de 2025 levou para a sociedade é que, quando uma mulher quilombola tomba, o quilombo se levanta com ela”, reflete, esperançosa, acrescentando que, nesse caso, levantar também impacta a agenda do clima.

