Luciana Petersen e a visão de que as comunidades de fé são o chão em comum entre diferentes agendas no Brasil
Luciana Petersen
Foto: Tatiane Nuvolari
Em um processo que ela define como “encontrar igreja com outras pessoas”, a jornalista, pastora, feminista negra, cristã progressista e mestre em Comunicação Digital e Cultura de Dados pela FGV, Luciana Petersen, encontrou o Novas Narrativas Evangélicas. O movimento constrói uma cultura de espiritualidades voltada à transformação social e atua na disputa pela identidade evangélica por meio de ações e agendas propositivas, orientadas pelos direitos humanos, diretamente conectadas a temas centrais da fé evangélica e aos principais desafios sociais do Brasil.
Ao falar sobre como o Novas tem disputado, na prática, a agenda evangélica antifundamentalista*, Luciana destaca que há uma aposta em linguagens e formatos afetivos. Trata-se de uma agenda que também nasce de uma vivência evangélica comprometida com políticas de vida e justiça social. “Partimos desse caminho para levantar pautas de justiça racial e de gênero, combate às mudanças climáticas, direitos da população LGBTQIA+ e democracia”, comenta.
O Novas alcança público como jovens evangélicos, pessoas LGBTs e mulheres negras. Segundo Luciana, isso abre espaço para trabalhar uma linguagem mais engajadora e inovadora. Ao mesmo tempo, também desperta resistências dentro do próprio campo, que por vezes associa o movimento a estereótipos ou o considera “pra frente” demais.
Ao refletir sobre como transitar entre esses extremos e, ainda assim, manter o compromisso com a democracia e os direitos humanos, produzindo reflexões estratégicas capazes de mobilizar evangélicos e setores mais amplos da sociedade brasileira, Luciana aponta que há uma grande massa entre os polos. “São pessoas que não estão radicadas nem mobilizadas. Grande parte da população evangélica não está polarizada, mas habita as igrejas, as ruas e a internet com questionamentos sobre a fé, a vida e a sociedade. Nosso objetivo é ser um contraponto forte ao fundamentalismo religioso e estabelecer diálogos estratégicos com campos amplos”, afirma.
Nesse sentido, o Novas Narrativas Evangélicas atua a partir de diferentes estratégias de comunicação. “Desenvolvemos uma variedade de produtos que vão desde memes até música, devocionais e encontros de formação política. Acreditamos que conseguimos promover novas narrativas, inclusive entre públicos que divergem de nossas pautas, tendo como chão comum a fé que nos une.”
Essa necessidade de desenvolver uma variedade de formatos para dialogar com esses públicos também aparece em veículos de comunicação que não atuam exclusivamente com comunidades de fé. O segmento evangélico está cada vez mais presente em novelas, séries, filmes e podcasts. Ao avaliar o cenário atual, em que esse público se torna crucial na disputa de narrativas, Luciana defende que a parcela da população que consome esses produtos não deve ser interpretada a partir de uma lógica de tabu.
“Ser evangélico já faz parte da cultura do Brasil, e isso precisa deixar de ser um tabu. Estamos diante de uma cultura complexa, que está em constante expansão e contempla grande parte da população em suas expressões de música, literatura, arte, moda, dança, alimentação, esportes, comportamento e entretenimento. É preciso aprender a ver beleza nisso.”
Para ela, a dificuldade que parte da sociedade tem de enxergar a população evangélica como parte da cultura do país está diretamente ligada ao histórico de representações midiáticas preconceituosas. “Há um histórico de representações que tratam essas pessoas como alienadas, burras e alheias ao mundo. É fundamental notar a mudança nas narrativas sobre o segmento evangélico, com representações mais humanizadas e fiéis a essa parcela da população, que é trabalhadora, majoritariamente negra, feminina e periférica”, afirma.
Ela acrescenta que se trata de um grupo plural que consome, enfrenta problemas sociais no dia a dia e influencia pleitos eleitorais. “Dialogar com essa parcela da população sobre pautas cívicas, utilizando a linguagem e os afetos que a mobilizam, é extremamente estratégico para promover um Brasil mais democrático e inclusivo.”
Registro de atividade do Movimento Novas Narrativas Evangélicas
Foto: Rafael Brito
Ao analisar os caminhos para dialogar com esse público e o que significa “ser evangélico” no contexto das novas narrativas, Luciana avalia que o ponto de partida é reconhecer que ser cristão é um modo de ser e estar no mundo. “Seguindo os passos de Jesus, mestre que estabelece uma ética de amor radical e valores fundamentais para uma existência que faça sentido nesta vida e na eternidade”, afirma. Ela completa que o livro que sustenta essa visão é, ao mesmo tempo, uma obra em disputa.
“Os evangélicos têm a Bíblia como livro sagrado, que conta a história de um povo que caminha com Deus e nos inspira a buscar uma existência com sentido nesta vida, almejando uma eternidade em que não haja morte nem dor. Entretanto, a Bíblia é um livro em disputa e tem sido historicamente cooptada para justificar opressões, violências e projetos de poder que nada têm a ver com o Evangelho (boas novas) de Jesus.”
Segundo Luciana, nos últimos tempos, o Brasil viveu um reflexo direto dessa disputa com o avanço de posições mais extremas dentro de parte das igrejas. “Isso levou a uma intensa radicalização de alguns segmentos dessa população e a um êxodo em massa das igrejas entre aqueles que não concordam com a instrumentalização da fé”, conta. Ela acrescenta que pautar novas narrativas precisa considerar cenários como esse.
“Pensar novas narrativas nesse contexto é enfrentar aquilo que o fundamentalismo religioso prega como verdade sobre a nossa fé, afirmando que não há uma história única sobre ser evangélico no Brasil e que existem diversos jeitos de ser crente. Somos muitas pessoas, com experiências e corporeidades diversas. Não estamos alheios aos problemas sociais do Brasil, enfrentamos na pele as opressões da sociedade e nos mobilizamos para mudar o mundo a partir da nossa fé. Ao pautar novas narrativas, estamos habitando as fissuras dos sistemas opressores, acreditando que é possível viver uma fé e uma espiritualidade pautadas pela justiça, diversidade e sonhos coletivos”, finaliza.
* Antifundamentalismo religioso refere-se a posições, iniciativas e perspectivas que se contrapõem ao uso de interpretações religiosas rígidas ou exclusivistas para restringir direitos, limitar liberdades ou orientar políticas públicas de forma excludente. O termo não se refere à oposição à religião, mas à defesa do pluralismo religioso, da laicidade do Estado e da convivência democrática.

