É no baile que a palavra deixa de ser código e vira pertencimento

Yná Kabe Rodríguez Olfenza
Foto: Rafaelly La Conga Rosa

Mais do que um ato político e uma reivindicação de reparação e de direitos, a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver mostrou que luta e celebração podem marchar lado a lado, afirmando a possibilidade de mulheres com corpos, origens e trajetórias diferentes estarem juntas e vivas, mesmo diante de tantas desigualdades e falta de acesso a direitos que assolam as mulheres negras brasileiras.

Com um diálogo intergeracional e a visibilidade de comitês temáticos, a mobilização criou pontes e alianças, promovendo um legado de linguagem política ao comunicar por conexão, e não apenas por delimitação. Esse caminho permitiu destacar mulheres trans e travestis em diferentes momentos da programação, desde a mestre de cerimônias do dia 25 de novembro até a cultura ballroom exaltada dois dias antes, durante o evento “1 Milhão de Faq Queens – A Revolução das Bonecas (1MFQNs)”, realizado na Universidade de Brasília (UnB) como parte das atividades que antecederam a Marcha.

A cultura ballroom foi celebrada em Brasília como uma das tecnologias de resistência mais potentes da população negra LGBTQIAPN+, e Yná Kabe Rodríguez Olfenza foi uma das idealizadoras do baile. Artista, curadora e pesquisadora, é mestra formada pela UnB, na linha de pesquisa Métodos e Processos em Arte Contemporânea.

Yná tem uma trajetória que combina prática artística, gestão de projetos culturais, curadoria independente e desenvolvimento de iniciativas educacionais disruptivas, o que lhe dá propriedade ao classificar como “imensurável” a importância do encontro entre a cultura ballroom e a Marcha. “Provavelmente um dos projetos de que já participei em que mais abraços, sorrisos e trocas de elogios confirmaram como a travestilidade e as mulheres cis negras se potencializam quando estão juntas”, vibra ela, acrescentando que há um valor muito grande em ter a oportunidade de mostrar um movimento articulado por mulheres trans e travestis negras e aprender como refletir união e articulação enquanto movimento.

Ainda não é trivial que, entre os muitos apoios mobilizados para realizar um evento como a Marcha, um deles seja destinado exclusivamente à cultura ballroom e à comunidade LGBTQIAPN+. Sobre esse diferencial, Yná comenta que sentiu o impacto logo no início. “Esse ponto criou maior estabilidade em todo o processo, o que fortaleceu a coletividade e as múltiplas comunidades que formam as cenas (ballrooms), possibilitando apoio às atividades culturais propostas pelo projeto e pela Marcha, assim como a própria presença das pessoas”, confidencia, relembrando o quanto a cultura ballroom ficou em evidência na programação, não só no baile.

“A cultura ballroom também esteve presente no palco principal da Marcha, guiando diferentes momentos da programação e gerando um engajamento significativo e, até então, inédito em um encontro tão grande de movimentos que nem sempre caminham juntos”, celebra.

Yná conta que poder desenvolver e executar o baile 1MFQNs foi uma conquista muito aguardada. “Muitas vezes, enquanto artistas, estamos cerceadas aos espaços culturais e às visões limitadas das instituições sobre como e o quanto nossa arte pode se expressar. Já nesse movimento de aproximação com a Marcha, nossa voz se tornou mais forte na busca por espaços onde possamos nos posicionar além das limitações que costumam aparecer, reflete ela.

Apresentação durante o baile “1 Milhão de Faq Queens”, em Brasília
Foto: Pedro Lacerda

Ao analisar essa conexão entre diferentes frentes, Yná observa que a linguagem sempre foi um ponto forte de encontro entre os movimentos e uma ferramenta fundamental de comunicação e segurança para travestis e pessoas trans. Mais do que um código, o Pajubá se tornou língua de resistência e símbolo de identidade. No baile realizado em novembro, o uso de “boneca”, por exemplo, apareceu no título, ressignificando um termo que voltou a circular em contextos de políticas anti-pessoas trans.

Quando pensa nos caminhos da comunicação para que palavras como essa se tornem tecnologias de transformação, articuladas à arte como forma de revolução, Yná opina que as palavras se tornam tecnologias no exato momento em que são forjadas, especialmente para enfrentar as dificuldades da opressão e do apagamento. “Elas viram ferramentas, e o primeiro passo para essa transformação é o uso político e afetivo do território”, defende ela, acrescentando que tudo muda quando uma palavra é ressignificada. “Ela deixa de ser uma arma usada contra nós e se torna uma ferramenta nossa.”

Como exemplo desse processo, Yná destaca a invenção e a manutenção de uma língua própria como ferramenta de sobrevivência e bem viver, como acontece com o Pajubá. “O Pajubá nasce da necessidade de diálogo em meio às limitações impostas por uma sociedade violenta. Ele é, em si mesmo, uma tecnologia social: um código que protege, identifica e acolhe uma ampla comunidade.”

“É tratar a comunicação com o mesmo carinho e urgência com que tratamos a arte, pois ambas precisam se transformar ao mesmo tempo em que almejam a transformação da sociedade. A arte é o palco onde essa tecnologia social se apresenta e se celebra.


É no grito, no poema, no baile que a palavra deixa de ser apenas um código e vira um evento de pertencimento. Por isso, para que algo se torne essa ferramenta de transformação, para que algo seja ‘babadeiro’, precisa essencialmente ser ‘babado certo’!”, conclui.

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