Jeft Dias e a cultura como forma de ampliar o olhar sobre a emergência climática

Jeft Dias
Foto: Hilton Naka

Ter Belém como sede da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em 2025, evidenciou que a cultura, quando se encontra com a agenda climática, tem o potencial de despertar a sensibilidade crítica a partir das vivências de cada pessoa. Nesse encontro, ela se torna um território potente de disputa de narrativas, capaz de gerar engajamento emocional e cognitivo e impulsionar ações por justiça climática.

Para Jeft Dias, produtor cultural, criador e diretor do Instituto Psica, que promoveu diversas atividades durante a COP30, a cultura é uma das formas mais potentes de chamar a atenção para a agenda climática. “É necessário encontrar formas criativas e competitivas de alertar as pessoas sobre os riscos à nossa sobrevivência que a ausência do debate climático pode causar. É nesse lugar que a cultura pode atuar de forma efetiva, especialmente se a estratégia considerar que o nosso povo demonstra apego ao território por meio da cultura”, diz Jeft. Ele acrescenta que, quando existe um trabalho para fortalecer esse vínculo, aumentam as chances de chamar a atenção das pessoas e levá-las a refletir sobre como a emergência climática interfere no cuidado com o território, por exemplo.

Para mobilizar as pessoas em torno de agendas como a climática, o Psica aposta em expressões como o audiovisual.

“Partimos de histórias contadas nas periferias e no interior dos estados do Norte do Brasil. A partir delas, produzimos filmes, fazemos curadoria musical de eventos e criamos conteúdos para redes sociais com o objetivo de conscientizar o nosso público sobre questões socioambientais, trabalhando o pertencimento e a memória afetiva que todos têm em relação à cultura produzida no nosso território.”

O compromisso e a celebração do Psica em relação ao território já são antigos. Comandado por Jeft ao lado de seu irmão, Gerson Junior, o Instituto é também produtora, movimento de cultura periférica e festival, que se consagrou como um dos principais eventos de música independente do Brasil e foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Município de Belém. Jeft conta que a palavra “psica” vem do nheengatu, língua originada do tupinambá e falada na Amazônia brasileira, e quer dizer “pegar”. “É como se estivesse dizendo que alguma coisa vai pegar em você e não vai sair, e isso pode ser uma coisa boa ou ruim”, explica.

Com o passar do tempo, e sob influência do processo de colonização, o termo passou a ser mais associado à negatividade, algo como um mau-olhado. “Dizem que, quanto mais se repete a palavra psica contra um oponente, mais o oponente pode ser atingido pela psica e errar um movimento, ter azar e assim por diante. Quando criamos o Instituto, ressignificamos esse termo, porque para a gente psica é um grito de guerra decolonial, é uma arma ancestral contra as injustiças que sofremos historicamente. Quem tem medo da psica, sabe por que tem medo”, explica.

Esse grito de guerra ecoa há mais de 13 anos por meio de projetos que resgatam, enaltecem e reescrevem a identidade cultural, social, política e ambiental da região da Pan-Amazônia. Por isso, quando Belém foi escolhida para receber a COP30, os irmãos já estavam mais do que preparados para conectar seus projetos à conferência.

O Psica ampliou ainda mais o seu envolvimento com o território ao criar a Casa Dourada, um “aparelho cultural” no marco zero de Belém que reivindica uma história anterior à colonização e se soma ao trabalho social que o Instituto já desenvolvia no Pará. Jeft conta que a iniciativa representa uma ampliação do impacto que eles buscavam promover no território, já que há uma programação ativa durante todo o ano. “O objetivo é ter o Festival Psica como um atrativo para a Casa Dourada, onde realizamos ações de fortalecimento cultural, debate climático, formação técnica e produção cultural. Os dois projetos se retroalimentam, fortalecendo o ecossistema de economia criativa do estado”, explica, acrescentando que a Casa carrega o DNA do Psica. “A Casa tem o mesmo propósito de fortalecimento cultural do Pará e do Norte, com foco na juventude periférica, preta, indígena e LGBTQIAPN+. É um espaço que acolhe e forma pessoas da periferia, e serve de palco, o ano inteiro, para artistas que estão em início de carreira.”

Usando todo esse “aparelho cultural”, com conhecimento profundo da região, os irmãos Jeft e Gerson prepararam uma programação especial para os dias de COP30. “Definimos um tema para a programação junto com o Instituto Regatão e, em seguida, contratamos a PEP Consultoria para desenvolver e executar a nossa proposta, que resultou em um conceito curatorial que elegeu a justa distribuição financeira como o principal ponto de tensão da conferência e alertou para a priorização de interesses individualizados sobre o futuro coletivo”, afirma. Como hipótese curatorial, a Casa Dourada seguiu três eixos: território como inteligência climática; afeto como linguagem política; e memória como código do amanhã, posicionando a cultura amazônica como uma “tecnologia de transição”.

Gerson Dias, Bruna Suelen e Jeft Dias, da Psica Produções, durante o painel “A Volta da Dourada: o fim e o início de um novo ciclo”
Foto: Wagner Filmes

“Em um planeta em colapso, a proposta da curadoria se materializou ao olhar para práticas culturais amazônicas, como festas, afetos, cosmologias, sentidos e resistências, não como símbolos de um passado, mas como infraestruturas vivas de futuro”, pontua Jeft, destacando que, na COP, a Casa foi menos um palco e mais um corpo coletivo.

“Onde arte, política e cultura se encontraram para reaprender o futuro. Um aprendizado a partir dos povos amazônidas, que ensaiam há gerações formas de viver com a floresta, o tempo e o outro. Suas culturas são dispositivos de cuidado, economia e imaginação que já respondem à crise que o mundo ainda tenta nomear.”

Durante a COP30, com a presença de marcas interessadas no território e de lideranças globais, Jeft conta que conseguiram chamar a atenção desses atores e dos públicos com os quais dialogam, reforçando a importância de investir em iniciativas que geram impacto na cidade mesmo após a conferência. “Conseguimos estabelecer contato com várias marcas e algumas foram fundamentais para que a Casa ganhasse projeção e pudesse se manter”, diz, destacando, porém, que há um desafio agora que os holofotes diminuíram. “O desafio imediato é obter recursos para dar mais longevidade ao projeto.”

Impulsionada pelo reconhecimento ainda maior após a COP30, a Casa Dourada seguirá com exposições das periferias das Amazônias, cursos, apresentações musicais, exibição de filmes e ativações voltadas ao debate de ideias de impacto socioambiental e cultural. 

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