Ana Carolina Evangelista e as transformações religiosas que ajudam a explicar o Brasil contemporâneo
Ana Carolina Evangelista
Foto: arquivo pessoal
Há décadas, o lugar da religião na sociedade brasileira é tema de pesquisas e debates públicos. Em um país diverso e oficialmente laico, a Constituição Federal de 1988 garante a liberdade religiosa e reforça o dever do Estado de respeitar e proteger igualmente todas as formas de expressão de fé, inclusive a ausência de religião, como parte do compromisso com a democracia.
Ana Carolina Evangelista, Pesquisadora de Política do ISER, Instituto de Estudos da Religião, avalia que falar do religioso, da religião e das religiosidades costuma estar submetido a uma visão moderna que tende a deslocar esse campo para o espaço privado, como algo de foro íntimo, restrito aos “espaços apropriados” para sua manifestação.
“Essa visão desconsidera que a religião é um fenômeno social. Falar de religiosidade no Brasil é, no fundo, falar do país em si. É falar de identidade, de cultura, do agir social e político nos quatro cantos do país. É falar de diferentes configurações do espaço público atravessadas pelas religiões dominantes e pelas diferentes espiritualidades identificadas no brasileiro”, afirma.
Ela acrescenta que a religião deve ser compreendida de forma ampla, no plural e em sua universalidade, levando em conta a diversidade de formas particulares relacionadas a crenças, mitos, ritos e organizações coletivas, inseridas em contextos sociais, culturais e históricos específicos. “Religiões e religiosidades marcam fortemente as expressões culturais no país e estamos falando de campos porosos, que se interpenetram, seja como crença, seja como cultura.”
Aprofundando essa ideia de campos porosos, Ana Carolina, que nos últimos anos se tornou uma referência no debate público, na imprensa nacional e internacional, sobre a participação de religiosos na política brasileira, destaca que há diferenças regionais e nuances locais nos lares brasileiros.
“O Brasil vive um cenário de pluralização e transição religiosa, saindo da condição de país de esmagadora maioria católica até os anos 1980 para um contexto de mudança significativa”, observa. Ela adiciona que o último Censo, de 2022, trouxe dados que comprovam esse cenário. “Aproximadamente 57% católicos, 27% evangélicos, 10% sem religião - incluindo ateus e agnósticos - e 7% dividido entre outras religiões.”
Apesar de uma redução gradual ao longo das últimas décadas, católicos e evangélicos permaneceram, somados, acima de 90% da população brasileira até o levantamento de 1991. Foi apenas no Censo de 2000 que a participação conjunta desses dois grupos cristãos caiu para 89,2%, ficando abaixo de 90% pela primeira vez. Já no Censo de 2022, o total combinado de católicos e evangélicos corresponde a 83,8% da população. Em uma comparação de longo prazo, considerando o período entre 1980 e 2022, observa-se uma redução de aproximadamente 12 pontos percentuais na proporção de cristãos no país.
Ana Carolina Evangelista explica que, no que diz respeito ao crescimento contínuo dos evangélicos, formou-se ao longo dos últimos 40 anos uma espécie de cinturão evangélico nas periferias urbanas do Brasil. “É um segmento religioso que cresce em todos os estratos sociais, mas está predominantemente na base da pirâmide social, em áreas urbanas e periféricas. Estamos falando também de uma população majoritariamente de baixa renda, negra e feminina”, comenta. Ela reforça que, ainda assim, há uma forte mistura religiosa entre essa população.
“Uma grande parte do retrato das famílias brasileiras nas periferias urbanas Brasil afora é composta por famílias lideradas por mulheres negras, evangélicas, mas com muita mistura religiosa entre seus membros e, muitas vezes, com dupla pertença. A avó católica que segue católica, mas frequenta o terreiro; a mãe de família católica que se converteu e agora é evangélica e tem filhos e sobrinhos que ainda se declaram ‘sem religião’, porque ainda não encontraram sua identificação religiosa e terão, cada vez mais, depois da Constituição de 1988, a liberdade de dizer que não têm religião.”
Ana Carolina na Conferência do Consórcio Indonésio de Estudos Religiosos (ICRS)
Foto: arquivo pessoal / reprodução
Para compreender melhor essa combinação no país, o ISER produz estudos quantitativos e qualitativos sobre o campo religioso em sua diversidade, assim como sobre a política e a vida social em suas diferentes dimensões. Ana Carolina destaca que essas pesquisas permitem que a sociedade entenda, de forma mais detalhada e qualificada, o contexto das comunidades de fé, podendo se reconhecer nele e identificar os desafios para o fortalecimento de agendas de direitos e justiça socioambiental.
Em breve, o ISER lançará o estudo quantitativo nacional “Brasil e Vida Pública”, que, segundo a pesquisadora, permitirá traçar um retrato do presente. “Uma foto sobre o trânsito religioso, práticas, dupla pertença, valores, visões políticas, demandas sociais e hábitos cotidianos, de cultura e de mídia”, explica.
“O estudo partiu de uma série de perguntas centrais sobre o país e suas transformações: como o Brasil se divide em vários Brasis quando olhamos cuidadosamente para os grupos sociais e suas identidades religiosas; onde encaixar as contradições do nosso povo; qual é o Brasil que as novas gerações estão demandando; qual é o lugar da religião e das religiosidades em um país onde elas parecem estar por toda parte, inclusive na política institucional; de que maneira símbolos, valores, gramáticas e linguagens do religioso influenciam o comportamento e o pensamento dos brasileiros; e como diferenças regionais, de gênero, de raça e de renda atravessam essas relações e intersecções”, revela, completando que o estudo vai entregar um espelho do perfil religioso do brasileiro. “Além de pistas importantes para compreender a nossa relação com a religião e o religioso em diferentes dimensões”, conclui.

